Uma vida inteiramente entregue a Deus
A Forma de Vida das Irmãs Clarissas nasce do desejo de dar à existência pessoal e comunitária a forma do Evangelho de Jesus Cristo. Em altíssima pobreza e santa unidade, na contemplação e na clausura, na oração da Igreja e no trabalho realizado com fidelidade e devoção, toda a vida é orientada para Deus.
Esses quatro pilares não são atividades separadas, mas dimensões inseparáveis de uma única resposta ao Evangelho: a confiança na Providência sustenta a fraternidade, o recolhimento alimenta a oração e o trabalho permanece a serviço da santa oração e devoção.
Quatro expressões de uma vida orientada para Deus
A pobreza, a unidade, a contemplação, a clausura, a oração e o trabalho se iluminam e se sustentam mutuamente como dimensões de uma única Forma de Vida.
01 — EM ALTÍSSIMA POBREZA E SANTA UNIDADE
Cada expressão ilumina e sustenta as demais.
04 — TRABALHO, NA FIDELIDADE E DEVOÇÃO
Cada expressão ilumina e sustenta as demais.
EM ALTÍSSIMA POBREZA E SANTA UNIDADE
O primeiro pilar reúne o chamado a viver sem nada de próprio, dar à vida a forma do Evangelho, confiar na Providência e formar uma só fraternidade, reconhecendo cada Irmã como dom de Deus e colocando tudo em comum.
Viver sem nada de próprio
A forma do Evangelho
“A forma de vida da Ordem das Irmãs Pobres, instituída pelo bem-aventurado Francisco, é esta: observar o santo Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo…”
Com estas palavras abre-se o texto da Regra das Irmãs Pobres (hoje Regra de Santa Clara) escrita por Clara e aprovada pelo Papa Inocêncio IV em 9 de agosto de 1253, poucos dias antes da morte da Santa. Percebe-se imediatamente o sonho de Clara e de suas companheiras: dar à própria vida — pessoal e comunitária — a forma do Evangelho do Senhor, vivendo juntas como Irmãs, em santa unidade e altíssima pobreza.
Viver sem nada de próprio
Altíssima pobreza, porque escolhida pelo Filho do Altíssimo, o Senhor Jesus, que se fez pobre para nos enriquecer. Altíssima porque não é entendida apenas como pobreza pessoal, mas também comunitária. As Irmãs sustentam-se com o seu trabalho manual e a generosa doação dos benfeitores.
A liberdade da expropriação
A pobreza franciscana interpreta-se especificamente como “expropriação”. Essa expropriação, que imita o aniquilamento de Cristo, além da renúncia dos bens terrenos, estende-se a um âmbito vastíssimo, ou melhor, a toda a vida religiosa. Ela, em particular, tem o objetivo de libertar o coração das Irmãs de todo apego às coisas terrenas. Torna-as, de fato, livres tanto em relação aos bens externos quanto aos internos, plenamente disponíveis para acolher, na contemplação, Cristo e o Reino de Deus, abertas à esperança futura, bem como à sincera gratidão a Deus, de quem provém todo bem. (CCGG 2,34)
Confiadas à Providência
A forma de vida delineia uma existência privada de garantias para o amanhã, fundada unicamente na confiança alegre e corajosa no Pai das misericórdias, que envolve com o seu amor o simples cotidiano vivido.
A vida em comunhão fraterna
Uma só e indivisível fraternidade
A nossa família religiosa é uma expressão particular do Corpo Místico de Cristo, uma vez que, sendo composta por vários membros, cresce em unidade de espírito em virtude da caridade, que é a plenitude da lei e o vínculo da perfeição.
Para São Francisco, assim como para Santa Clara, a dimensão fraterna é um elemento essencial da sua forma de vida. Desde o início da sua vida para Deus, Santa Clara teve Irmãs: elas são para ela um dom de Deus.
Portanto, todas nós, Irmãs consagradas a Deus mediante a profissão da mesma Regra, formamos uma só e indivisível fraternidade, para conservar a unidade do espírito no vínculo da paz.
Além disso, contudo, somos devedoras também para com todos os homens, querendo viver não apenas para nós mesmas, mas também servir e ajudar os outros.
A nossa vocação, em sua totalidade, progride no leito da vida comunitária. Tudo o que constitui a nossa riqueza deve, na vida claustral, desenvolver-se e alcançar a sua perfeição.
Daí resulta o valor incalculável que a vida em comunhão de amor representa para nós. Esta, tendo o seu fundamento na comunhão de vida que está no seio da Trindade, exige de nós um constante empenho de revisão, para nos tornarmos cada vez mais claramente, dia a dia, manifestação deste mistério de amor.
Sacramento da Providência
Pela nossa expropriação total, nós, na comunidade, estamos abandonadas à Providência de Deus. A comunidade apresenta-se, assim, como “sacramento” da Providência de Deus, que cuida de todas as criaturas com amor materno.
As Irmãs, portanto, são a manifestação da mão e do coração de Deus: é assim que, vivendo na caridade unida à verdade, poderemos alcançar a meta para a qual o Senhor nos chamou e nos reuniu.
Cada irmã como dom de Deus
Clara considera cada Irmã como um dom de Deus.
Tudo em comum
A vida fraterna, vivida no espírito das primeiras comunidades cristãs, é consolidada pela vocação comum, a ponto de, para Clara, o vínculo espiritual ser mais forte do que o de sangue. As Irmãs vivem colocando tudo em comum, não têm nada de próprio e, se recebem algo do exterior, entregam-no à Abadessa, de modo que possa ser dado à Irmã que tiver mais necessidade. A dimensão fraterna é vivida intensamente tanto na oração quanto no trabalho.
Amar com obras
Santa Clara, dirigindo-se às Irmãs, diz-lhes: “E amando-vos mutuamente na caridade de Cristo, demonstrai exteriormente pelas obras o amor que tendes no íntimo, para que, estimuladas por este exemplo, as Irmãs cresçam sempre no amor de Deus e na mútua caridade.”
EM CONTEMPLAÇÃO NA CLAUSURA
Contemplação e clausura constituem uma resposta integral ao amor de Deus: acolhimento do Filho, morada do Deus Trino, transformação em Cristo, busca do rosto de Deus, recolhimento, silêncio e entrega total.
O coração como morada de Deus
O espanto diante do amor de Deus
A experiência contemplativa de Francisco e de Clara nasce do espanto diante da inaudita descoberta do amor preveniente e gratuito de Deus, feito carne em Cristo Jesus, que se fez pobre para que nós nos tornássemos ricos. Na humilde e alegre gratidão pela imensidão de tal dom, eles se abriram à ação do Espírito do Senhor, que fez de seus corações uma morada e uma tenda do Deus trino.
Uma morada do Deus Trino
Dedicando toda a energia da mente e do coração, todo afeto e vontade no deixar-se amar, tornaram-se, como Maria, humilde acolhimento do Filho de Deus e sua radiosa Presença, tornando-se assim, como ela, por força do mesmo Espírito, «esposos, irmãos e mães de nosso Senhor Jesus Cristo».
Contemplar Cristo
Enquanto o bem-aventurado Francisco, sob a inspiração do Espírito Santo, viveu em si a dimensão contemplativa e apostólica da vida evangélica, Clara e suas Irmãs, radicando a Palavra no coração e o coração em Deus, escolheram como seu tipo particular de vida testemunhar Cristo que contempla no monte, sozinho diante do Pai no mistério da sua divina complacência.
Transformadas pela contemplação
Verdadeiramente «só no mistério do Verbo Encarnado encontra verdadeira luz o mistério do homem». Desde sempre Deus, que criou o homem à sua imagem e semelhança em Cristo, Verbo Encarnado, o chama à sua comunhão de amor, como filho. Após o pecado, o homem não perdeu este desejo inato de contemplar o rosto de Deus, «aderindo a Ele com a mente e com o coração».
Por esta mesma via, Clara, «contemplando a Cristo, transforma-se inteiramente na imagem da sua divindade» e indica também a nós esta via, «gritando com todo o ardor do desejo e do amor: Atrai-me, ó celeste Esposo! Atrás de ti correremos, atraídas pela doçura do teu perfume. Correrei sem jamais me cansar, até que me introduzas na tua cela inebriante».
Encontrar o Criador nas criaturas
À imitação de Francisco, que «contemplava em todas as criaturas a sabedoria, o poder e a bondade do criador» e à imitação de Clara, que convidava as Irmãs a louvarem a Deus quando vissem «as árvores belas, floridas e folhudas, e de igual modo os homens e as outras criaturas», assim também nós buscamos «tirar de cada coisa um incentivo para amar a Deus, exultando pelas obras de suas mãos, e através de cada imagem agradável, subimos até Ele, que é Causa e Razão pela qual tudo vive. Nas coisas belas, contemplamos Aquele que é a Beleza e, seguindo as pegadas impressas nas criaturas, saibamos ver em toda parte e em tudo o Amado».
Possuir somente Deus
Seguindo Jesus Cristo, caminho, verdade e vida, Francisco e Clara, «contentes por possuírem somente a Deus», nada desejaram, nada quiseram, em nada encontraram prazer e deleite «senão no Criador e Redentor e Salvador nosso, único Deus verdadeiro, que é a plenitude do bem, todo o bem, o bem total, o verdadeiro e sumo bem».
“Nas coisas belas, contemplamos Aquele que é a Beleza e, seguindo as pegadas impressas nas criaturas, saibamos ver em toda parte e em tudo o Amado.”
Escondidas com Cristo em Deus
Uma escolha eclesial
No mistério de Maria, a clausura é a nossa escolha eclesial de viver escondidas com Cristo em Deus, ao qual nos dedicamos inteiramente na totalidade do amor.
Em Clara, a clausura é também uma dimensão da altíssima pobreza, que a limita inclusive no espaço, entre os muros de São Damião. Ela constitui uma verdadeira e própria maneira de viver e expressar o mistério pascal de Cristo e da Igreja. Encerrando-se em clausura no recolhimento do ser, as Irmãs expressam mais perfeitamente e de maneira mais típica o elemento essencial da vida cristã enquanto tal.
O pequeno lugar de São Damião
A santa Mãe Clara «foi a primeira na Ordem das Mulheres Reclusas». Escolheu o deserto como vida que se nutre unicamente de Deus. Aos dezoito anos, recolheu-se “por amor do Esposo celeste” em um «pequeno lugar», em São Damião. «Neste estreito eremitério, quebrou por quarenta e dois anos, com os flagelos da disciplina, o alabastro do seu corpo, para que o edifício da Igreja se enchesse com a fragrância do perfume».
Uma escolha feita em liberdade
A clausura de Clara e de suas Irmãs nasce do desejo de «amar com todas as fibras do coração Aquele que, por nosso amor, entregou-se por inteiro» e «de não querer nada debaixo do céu», para entrar completamente, por Deus e pelos homens, no mistério de Cristo e da Igreja. Clara quis habitar «corporalmente reclusa» e «renunciar a bens sociais, embora supremamente apreciados e estimados, para escolher, em plena liberdade espiritual, uma forma de vida pela qual, na realidade da existência, adere-se exclusivamente a Deus e às coisas que estão no alto».
Um sinal para o mundo
«Clara mantinha-se escondida, mas a sua vida era conhecida por todos; Clara calava-se, mas a sua fama gritava; estava fechada na sua cela, e, no entanto, era conhecida nas cidades». Grande, de fato, é o valor de sinal e de testemunho da vida claustral. Cheias do Espírito do Senhor, as Irmãs podem oferecer testemunho «do outro mundo», ou seja, do mundo de Deus e da sua graça; da fidelidade, da paciência e da misericórdia. E não apenas declaram ao mundo qual é a meta a ser alcançada, isto é, a vida futura, mas também indicam o caminho que a ela conduz.
Retiro, silêncio e encontro com Deus
Com a observância da clausura, as Irmãs tendem a «dedicar-se na solidão a uma vida de oração mais intensa» e a «tornar mais fácil e mais seguro o encontro com Deus na oração», tendo obtido um retiro e um silêncio mais plenos, a fim de poderem, assim, corresponder integralmente à sua vocação contemplativa: pois a clausura, na realidade, é «uma ajuda comprovadíssima para a vida contemplativa».
Proteção da vocação contemplativa
A clausura deve, portanto, ser considerada como um meio ascético singularmente condizente com a vocação particular das Irmãs, sendo «o sinal, a proteção e a forma especial da sua separação do mundo».
ORAÇÃO, LITURGIA, INTERCESSÃO
Deus é a fonte, a meta, a força e a unidade da vocação. O espírito da santa oração e devoção é alimentado pela Eucaristia, pela Liturgia das Horas e pela oração pessoal, vividas no coração da Igreja e pela Igreja.
Deus e somente Deus
Deus e somente Deus é a fonte da nossa particular vocação contemplativa. Em Deus encontra-se não apenas a meta e a força que nos impulsiona para a frente, mas também a unidade da nossa vida. «Ocupem-se somente de Deus», como nos exorta o Concílio, com uma feliz e marcante expressão.
Cada instante da nossa vida deve ser pervadido por aquele íntimo diálogo de amor, do qual o próprio Deus toma a iniciativa, descendo até a pequenez da criatura e abrindo-lhe o conhecimento de Si mesmo. É este diálogo que nos conduz à jubilosa descoberta do que significa verdadeiramente não possuir nada e nos introduz na comunhão de amor com Aquele que se oferece a nós como a filhos.
O espírito da santa oração e devoção
«O espírito da santa oração e devoção, ao qual todas as outras coisas temporais devem servir», que constitui o meio para sustentar a íntima relação entre o Esposo Cristo Jesus e a esposa a Ele inteiramente entregue, é alimentado especialmente por aqueles momentos fortes de oração, que constituem a fonte e o ápice da nossa vida: isto é, a celebração da Eucaristia, da Liturgia das Horas e a oração pessoal.
Esta união contemplativa com Jesus, contudo, pervade em toda a sua continuidade a nossa vida cotidiana: na pobreza, no trabalho, na prática da humildade, nas tribulações, em cada circunstância, nas relações com os outros ou até mesmo com as criaturas irracionais. Em outras palavras, tudo nos deve oferecer ocasião para alimentar e favorecer «o espírito de oração e devoção».
A Vida Litúrgica
A Sagrada Liturgia, com a qual as Irmãs louvam a Deus no coração da Igreja, participam do Sacrifício e consomem a ceia do Senhor, nutrindo-as com os Sacramentos pascais, torna-as um só coração também na piedade.
Para celebrá-la frutuosamente, as Irmãs disponham-se a isso com o espírito de oração, que, de resto, haurirão nela com maior abundância das próprias fontes do Salvador.
A principal preocupação de todas as Irmãs seja esta: que a celebração do Sacrifício eucarístico e da Liturgia das Horas, devidamente preparada, constitua verdadeiramente o centro e o ápice de toda a vida da fraternidade.
A Eucaristia
«Pois nada vemos corporalmente neste mundo do altíssimo Filho de Deus, senão o seu Santíssimo Corpo e Sangue», tributemos «toda reverência e honra» à Eucaristia, prolongando no decorrer do dia a participação no Sacrifício também através da adoração.
A Liturgia das Horas
Como a Liturgia das Horas é «a voz da própria Esposa que fala ao Esposo, ou melhor, é a oração que Cristo, em união com o seu Corpo, eleva ao Pai», as Irmãs celebram-na com dignidade e devoção, lembrando-se de que, «rendendo louvor a Deus, estão diante do trono de Deus em nome da Mãe Igreja», de modo que seja consagrado a Deus todo o curso do dia e da noite.
No coração da Igreja e pela Igreja
A oração pessoal
Dado o nosso precioso carisma de vida contemplativa, estará supremamente em nosso coração cultivar «o espírito de oração e a própria oração… com assiduidade e zelo», como convém àquelas que, na Igreja e pela Igreja, se consagraram à oração.
A adoração eucarística
A participação na Eucaristia prolonga-se no decorrer do dia por meio da adoração, com reverência e honra ao Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo.
Consagrar o curso do dia e da noite
A Liturgia das Horas, celebrada com dignidade e devoção, consagra a Deus todo o curso do dia e da noite.
Interceder no coração da Igreja
Consagradas à oração na Igreja e pela Igreja, as Irmãs elevam o louvor a Deus em nome da Mãe Igreja.
A oração que consagra o curso do dia
TRABALHO, NA FIDELIDADE E DEVOÇÃO
O trabalho é acolhido como graça e realizado com as próprias mãos para a utilidade comum e o bem da fraternidade, com fidelidade e devoção, sem extinguir o espírito da santa oração, em participação na obra criadora e redentora de Deus e em confiança na Providência.
A graça de trabalhar com as próprias mãos
«As Irmãs às quais o Senhor deu a graça de trabalhar, trabalhem, depois da hora de terça, aplicando-se a trabalhos decorosos e de utilidade comum, com fidelidade e devoção, de tal modo que, banido o ócio, inimigo da alma, não extingam o espírito da santa oração e devoção, ao qual todas as outras coisas temporais devem servir.»
Com as próprias mãos
Santa Clara, na Regra, define o trabalho como uma “graça” e exorta as Irmãs a trabalharem «com as próprias mãos» para o bem da fraternidade, sem extinguir, porém, “o espírito da santa oração e devoção, ao qual todas as outras coisas temporais devem servir”. O ritmo do nosso dia, no entanto, não nos permite viver unicamente do nosso trabalho; e é por isso que nos confiamos à generosidade de tantas pessoas que se tornam, para nós, instrumentos da Providência do Pai.
Participação na obra criadora e redentora de Deus
Observamos a lei comum do trabalho como participação na obra criadora e redentora de Deus.
Trabalhos realizados para o bem da fraternidade
Além dos afazeres domésticos e cuidados do jardim, realizamos trabalhos manuais como: confecção de velas, hóstias, terços, restauração de imagens, artigos de papelaria e itens de padaria.
01 — Afazeres domésticos
02 — Cuidado do jardim
03 — Confecção de velas
04 — Produção de hóstias
05 — Confecção de terços
06 — Restauração de imagens
07 — Artigos de papelaria
08 — Itens de padaria
Tudo orientado para o espírito da santa oração e devoção
A altíssima pobreza, a santa unidade, a contemplação, a clausura, a oração litúrgica e o trabalho não são caminhos separados. Juntos, dão forma a uma vida inteiramente oferecida a Deus, vivida na fraternidade e colocada a serviço da Igreja.
Na confiança alegre na Providência, na comunhão fraterna, no silêncio que busca o rosto de Deus, no louvor da Igreja e no trabalho realizado com as próprias mãos, cada dimensão serve à mesma entrega evangélica e ao espírito da santa oração e devoção.
